Me deparei com uma passagem em que Liz, a narradora,
descreve sua primeira oração; o seu primeiro encontro com Deus em um momento muito difícil no decorrer de seus 30 e poucos anos. Logo de cara, no
primeiro capítulo, ela está ajoelhada no chão do banheiro, no meio da madrugada e aos
prantos pedindo
uma luz, pois seu desespero é tanto que ela não consegue ver
uma saída. É nesse momento que ela começa a rezar, espontaneamente, e o
livro começa. Vejam o trecho logo abaixo:
“É claro que tive tempo de sobra para formular minhas
opiniões sobre divindade desde aquela noite no chão do banheiro, quando falei
diretamente com Deus pela primeira vez. Mas, no meio daquela crise negra de
novembro, eu não estava interessada em formular opiniões sobre teologia. Estava
interessada apenas em salvar a minha vida. Eu finalmente percebera que parecia
ter atingido um estado de impotência e desespero que ameaçava a minha vida, e
acorreu-me que, às vezes, pessoas nesse estado recorrem à ajuda de Deus. Acho
que eu tinha lido isso em um livro em algum lugar.
O que eu disse a Deus em meio a meus soluços arquejantes foi
alguma coisa assim: “Oi, Deus. Tudo bem? Eu sou a Liz. Muito prazer.”
É isso mesmo – eu estava falando com o criador do universo
como se houvéssemos acabado de ser apresentados em um coquetel. Mas nós
trabalhamos com aquilo que conhecemos nesta vida, e essas são as palavras que
sempre uso no início de um relacionamento. Na verdade, era tudo que podia fazer
para não dizer: “Sempre admirei muito o seu trabalho...”
“Desculpe incomodar o senhor tão tarde assim”, continuei.
“Mas é que eu estou com um problema sério. E desculpe por nunca ter falado com
o senhor assim diretamente, mas espero de verdade sempre ter expressado minha
enorme gratidão por todas as bênçãos que o senhor me deu na minha vida.”
Esse pensamento me fez soluçar com mais força ainda. Deus
esperou eu me acalmar. Eu me recompus o suficiente para continuar: “ Não sou
nenhuma especialista em oração, como o senhor sabe. Mas será que o senhor
poderia por favor me ajudar? Estou precisando desesperadamente de ajuda. Não
sei o que fazer. Preciso de uma resposta. Por favor, me diga o que fazer...”
Assim, a prece se reduziu a essa simples súplica – Por
favor, me diga o que fazer – inúmeras vezes. Não sei quantas vezes implorei. Só
sei que implorei como alguém tentando salvar a própria vida. E eu não parava de
chorar.
Até que – muito de repente, percebi que não estava mais
chorando. Na verdade, havia parado de chorar bem no meio de um soluço. Minha
tristeza havia sido inteiramente aspirada para fora de mim. Ergui a testa do
chão e me sentei, surpresa, perguntando-me se veria algum Ser Grandioso que
havia levado embora o meu choro. Mas não havia ninguém ali. Eu estava sozinha.
Mas também não estava de fato sozinha. Eu estava cercada por algo que só posso
descrever como um pequeno bolsão de silêncio tão raro que eu não queria soltar
a respiração, com medo de assustá-lo. Era um silêncio totalmente imóvel. Não
sei quando eu havia sentido tamanha imobilidade antes.
Então escutei uma voz. Por favor não se assustem – não
era uma voz hollywoodiana saída do Antigo Testamento, como a de Charlton
Heston, tampouco uma voz que me dizia para construir um campo de beisebol no
quintal de casa. Era apenas a minha própria voz, falando de dentro de mim. Mas
aquela era a minha voz de um jeito que eu nunca tinha escutado antes. Aquela
era minha voz, mas perfeitamente sensata, calma e compassiva. Era a minha voz
como soaria se eu só houvesse experimentado na vida amor e certeza. Como posso descrever o calor da afeição
daquela voz ao me dar a resposta que selaria para sempre a minha fé no divino?
A voz disse: Volte para a cama, Liz.
Soltei a respiração.
Imediatamente, ficou muito claro que essa era a única coisa
a ser feita. Eu não teria aceitado nenhuma outra resposta. Não teria confiado
em uma voz grave e ribombante que houvesse dito: Você precisa se Separar do Seu
Marido! Ou você Deve se Divorciar do Seu Marido! Porque isso não é a verdadeira
sabedoria. A verdadeira sabedoria fornece a única resposta possível para
determinado instante e, naquela noite, voltar para a cama era a única resposta
possível. Voltar para a cama, disse aquela voz interior onisciente, porque você
precisa saber a resposta final neste instante, às três horas da manhã de uma
quinta-feira de novembro. Volte para a cama, porque eu amo você. Volte para a
cama, porque a única coisa que você precisa fazer por enquanto é descansar um
pouco e cuidar bem de si mesma até saber a resposta. Volte para a cama para
que, quando a tempestade chegar, você esteja forte o suficiente para lidar com
ela. E a tempestade vai chegar, meu bem. Em breve. Mas não esta noite. Portanto:
Volte para a cama, Liz.
De certa forma, esse pequeno episódio tinha todas as
características de uma típica experiência cristã de conversão – a noite escura
da alma, o pedido de ajuda, a voz que responde, a sensação de transformação.
Mas eu não diria que isso foi uma conversão religiosa para mim, não uma
conversão tradicional, como nascer de novo ou ser salva. Em vez disso, eu
chamaria o que aconteceu naquela noite de início de uma conversa religiosa. As
primeiras palavras de um diálogo aberto e exploratório que, no final das
contas, me levaria de fato até bem perto de Deus.”




